20 de Julho de 2017
Dezenove horas de sol. Isso mesmo. De-ze-no-ve. Para gente da minha laia, que ama o verão, comemora quando o horário dá vantagem para o dia, pareceu uma miragem. A Noruega até usa desse artifício para se promover, uma espécie de slogan, do tipo: venha para a luz. E confesso que arregalei os olhos quando chequei no aplicativo de tempo do iPhone e conferi que o sol se punha por volta das 23h30min e ressurgia às 4h. Que loucura! Preciso ver isso de perto.

Passei três dias em Oslo, na capital da Noruega, e não encontrei a lua. Nem as estrelas. Em função do turismo nível hard, durmo e acordo cedo para dar conta de bater todas as metas e ter uma boa noite de sono. Prioridades. Cada um tem as suas. Aliás, não queria decepcionar aqueles que esperavam uma volta ao mundo vida louca, do tipo "estou solto no planeta, ninguém me segura", mas só fui à balada em Ibiza porque estava no cardápio turístico local, não tinha escapatória. Ah, e também fiquei um mês sem beber nada alcoólico. Sinto desapontá-los, mas é assim que é. Tenta fazer turismo de ressaca ou pegar um voo enjoado para ver se você não acaba mudando seus conceitos.

Enfim, desculpa a falta de foco. Tudo isso para contar que passei mais de uma semana sem o escurecer. No início, foi interessante. A melhor parte era voltar do restaurante tarde da noite (?) e perceber que não havia perigo algum – não que a Europa ofereça esse tipo de questão, mas sempre é bom se resguardar à noite. O frescor do ar que a ausência de sol proporciona também não existia. Que maravilha é sair de casa sem se preocupar em levar um casaquinho. Outra parte boa: quando eu precisava madrugar para pegar um trem, por exemplo, o sol já estava alto. Parecia que não pesava tanto ter que pular da cama cedo, sabe? Não precisava acender as luzes de casa – se tem uma coisa que odeio é ter que acender as luzes de manhã, sinal de que não estava na hora –, bastava abrir as cortinas e deixar os raios entrarem. A vida na luz solar é mais fácil. A gente, brasileiro, que é movido por dias iluminados, bem sabe disso.

Só que aí começou a dar uma certa agonia. A primeira estranheza era com o fato de jantar com o dia claro. Não sei, parece-me fora de lógica. Para mim, a última refeição tem que ser feita à noite, com aquele clima de fim de jornada. Mas o pior é dormir com o sol alto. Cadê o sentido? Não importa o quanto você busque alternativas para deixar o quarto escuro, vai ter sempre uma réstia para lembrar que o sol continua brilhando lá fora. Passou a incomodar. E aí a gente vê que os hábitos são criados conforme o planeta gira. A noite nos ajuda a relaxar, a descansar, a não fazer tanta força nos olhos. Faz com que as pessoas se recolham, aquieta a rua, combina com silêncio. Ou com balada, que busca cantos sem tanta luz como alternativa para aquilo que não é aprovado por todos os olhares.

Mas o mais particular é a falta do melhor horário do dia: o pôr-do-sol. Aquele instante em que a gente entende que as obrigações estão se encerrando e se prepara para voltar para o conforto do lar, erguer os pés, deixar o ócio se aproximar. Quando o céu se permite misturar diversas cores e brincar com as nuvens e embasbaca a humanidade que para onde quer que esteja – no trânsito, na sacada, na janela, no escritório, no happy hour –, para agradecer o término de mais um dia e dar boas-vindas à toda-poderosa lua. Não adianta você vir argumentar que é só aguardar o bater das 23h30min para ter o anoitecer. Não é a mesma coisa.

O resumo da ópera é que o ser humano é um bicho complicado, nunca está contente. Ou eu que sou? Confirmo que a experiência foi interessante e maluca, mas que não consigo viver sem a mágica presença das estrelas, como diria Mario Quintana. Nem tanto ao sol, nem tanto à lua. É preciso dia, mas é necessário a noite. O calor é estimulante, mas a chuva é tão importante. No final das contas, somos um bando de reclamões que não consegue parar para avaliar a importância das dosagens e medidas. Queremos sempre mais, mais e mais. Só que o mais acaba sendo demais. Aliás, tenho que lembrar de agradecer por ter nascido em um país tropical, abençoado por Deus, e em uma região com as quatro estações bem definidas. Mas que beleza.
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